'Novo cangaço digital': investigação revela como quadrilha planejava roubo por transferências bancárias no interior de SP
11/08/2026
(Foto: Reprodução) Quadrilha monitora funcionários de cooperativas de crédito para roubar clientes
Imagens, áudios e documentos obtidos pela EPTV, afiliada da TV Globo, revelam uma mudança no modo de agir de quadrilhas especializadas em roubos a bancos. Em vez de atacar cofres e levar dinheiro em espécie, os criminosos passaram a monitorar funcionários, levantar dados pessoais e planejar sequestros para obrigá-los a realizar transferências eletrônicas milionárias.
O delegado à frente a investigação, Heitor Moreira Assis, classifica a atuação como "novo cangaço digital".
A investigação da Polícia Civil e do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) aponta que uma organização criminosa planejava atacar uma agência bancária localizada no Jardim Santa Cecília, em Cravinhos (SP), cidade às margens da Rodovia Anhanguera, na região de Ribeirão Preto.
Segundo as apurações, a ação estava prevista para junho de 2025 e contaria com um forte arsenal, incluindo pistolas, fuzis, explosivos, veículos roubados e até carros blindados.
Áudios interceptados durante a investigação mostram integrantes da quadrilha discutindo detalhes do plano. Em uma das gravações, Francisco Edivaldo Farias, conhecido como "Marighella" e apontado pela polícia como um dos líderes do grupo, aparece visitando a região e avaliando a capacidade do banco de movimentar grandes quantias.
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Funcionários eram vigiados
De acordo com o inquérito, o objetivo da quadrilha não era roubar dinheiro armazenado na agência, mas obrigar funcionários a realizar transferências bancárias que poderiam chegar a R$ 30 milhões.
Para isso, os criminosos passaram a monitorar a rotina de trabalhadores da agência. Vídeos encontrados em celulares apreendidos mostram funcionários sendo filmados sem saber.
Além da vigilância, dados pessoais dos empregados teriam sido obtidos ilegalmente. O relatório policial reúne conversas extraídas de celulares que indicam a troca de informações sobre o gerente da agência e pedidos para buscar mais detalhes sobre ele em redes sociais.
Francisco Edivaldo Farias, apontado como líder de roubo a bancos no interior de SP
Reprodução
Carros blindados, fuzis e divisão de funções
As investigações também encontraram indícios de que o grupo se preparava para outras ações criminosas na região.
Entre os materiais apreendidos está um bilhete atribuído à esposa de um dos líderes da quadrilha. No documento, ela consulta o valor do aluguel de um veículo blindado de luxo por um período de um mês.
Outras conversas interceptadas mostram integrantes planejando buscar veículos blindados no bairro de Paraisópolis, na capital paulista, além de coletes balísticos e fuzis.
Segundo o delegado, responsável pelo caso, a organização possuía uma estrutura complexa, com funções específicas para cada integrante.
"É um grupo bastante organizado, com indivíduos que têm a função de eventualmente participar da ação em si, e outros ficavam mais na inteligência, preparando celulares, armamentos e fuzis. Cada um tinha sua função bem delimitada na organização criminosa", diz Assis.
Francisco Edivaldo Farias também aparece nas investigações como responsável por recrutar integrantes e organizar a compra das armas que seriam utilizadas na ação. Em outras conversas, ele discute até mesmo a divisão dos lucros que seriam obtidos com o crime.
Armas apreendidas em operação contra quadrilha de roubo a bancos que tinha agência em Cravinhos (SP) como alvo
Reprodução
Blitz na Anhanguera frustrou ataque
O plano foi interrompido em 9 de junho de 2025, um dia antes da data prevista para o ataque.
Na ocasião, uma equipe da Polícia Militar realizava uma blitz na Rodovia Anhanguera quando deu ordem de parada a um veículo ocupado por Francisco e outro suspeito identificado como Thiago. Eles desobedeceram à determinação e tentaram fugir.
Após perseguição, os dois foram presos.
As investigações levaram os policiais até um imóvel utilizado pelo grupo em Cravinhos. No local foram encontrados armamentos, veículos roubados e aparelhos celulares que ajudaram a aprofundar as apurações.
O material armazenado nos dispositivos revelou detalhes do planejamento da ação e permitiu a identificação de outros integrantes da quadrilha.
Operação prendeu mais suspeitos
Oito meses após as primeiras prisões, em fevereiro deste ano, as polícias Civil e Militar, com apoio do Ministério Público, deflagraram uma operação para cumprir dez mandados de prisão preventiva e 24 mandados de busca e apreensão.
Novos equipamentos eletrônicos foram recolhidos e seguem sob análise para identificação de possíveis envolvidos.
Banco em Cravinhos (SP) foi alvo de plano para assalto, diz polícia
Reprodução EPTV
Ao todo, 18 pessoas foram denunciadas pelo Ministério Público e já se tornaram rés na Justiça. Parte dos investigados responde por crimes como organização criminosa, receptação e posse ilegal de arma de fogo.
Em nota, a defesa que Francisco disse que ele é inocente e nega com veemência a participação nos fatos narrados na denúncia.
“É importante registrar que não houve roubo — sequer tentado. Não há vítima, não há subtração de valores, não há apreensão de fuzis, explosivos ou de qualquer estrutura compatível com a narrativa acusatória. Toda a imputação repousa exclusivamente em capturas de tela de supostos diálogos extraídos de aparelhos celulares e na interpretação que a autoridade policial atribuiu a essas mensagens.”
"Novo cangaço digital"
Para o delegado, o caso representa uma transformação no perfil dos assaltos a bancos no país, fenômeno que ele classifica como "novo cangaço digital".
Segundo ele, a estratégia de forçar transferências bancárias tem se tornado mais atrativa para as quadrilhas porque dificulta o rastreamento e reduz os riscos de perda do dinheiro durante ações policiais.
"Antigamente eles cometiam o roubo para levar o dinheiro em espécie. Na nova fase, estão preferindo realizar transferências eletrônicas por meio de sequestro e coação de funcionários. Depois, pulverizam os valores em diversas contas e transformam parte do dinheiro em criptomoedas, o que dificulta o rastreamento pelas forças policiais", diz Assis.
As investigações continuam, e a Polícia Civil ainda analisa os materiais apreendidos para identificar possíveis novos integrantes da organização criminosa e apurar a participação de cada suspeito no esquema.
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